Tínhamos um cronograma a cumprir. Tínhamos convidado as escolas e instituições para trazerem os alunos nas oficinas educativas. Tínhamos a expectativa de dividir a experiência com MUITAS pessoas, mas a abertura da exposição coincidiu com a gripe H1N1.
As escolas tinham suspendido as aulas, as pessoas estavam com medo de se aproximar umas das outras. Algumas pessoas sequer saiam de casa.
A visita a exposição é feita com os olhos vendados, as pessoas tocam em todas as obras, além disso, são conduzidas por outras pessoas. O contato é direto, intenso e próximo. Mesmo disponibilizando álcool gel para assepsia e vendas descartáveis poucas pessoas vieram nos primeiros dias… toda a equipe (meus alunos e ex-alunos que são monitores na exposição) sofriam com aquele vazio… alguns dias, naquela primeira semana, ninguém apareceu…eles contavam as assinaturas no caderno e achavam um exagero quando eu pedia para me ajudar a preparar mais vendas…
Dia 17 de agosto as aulas voltaram. O tempo esquentou. O medo começou a se diluir…e a gripe foi ficando um pouco mais distante…
As pessoas começaram a vir e, quem veio, voltou. Voltou com alguém ou mandou alguém.

As visitas aconteciam: as pessoas vendavam os olhos e seguravam nas mãos dos monitores.. rostos próximos para escutar o outro… mãos tocando nas obras… obras tocadas por outras tantas pessoas…
As escolas agendaram os horários, conseguiram os ônibus ou as professores colocaram os alunos dentro de seus carros.
Os alunos se sentaram em roda: na cadeira ou no chão.
Alunos de creches, EMEI, EMEF, EJA, escolas públicas e privadas, faculdades, pós-graduação, mestrado e doutorado, também pessoas que não frequntaram a escola…
Visitantes de zero a 90 anos.
Grávidas, bebês, crianças, jovens, adultos.
Vendados. Andando no escuro. Conhecendo a exposição com todos os sentidos.
Pessoas sozinhas, em grupos, em família, entre amigos.
De olhos vendados, de olhos no mundo.
Pessoas
que sabiam ler ou não
que andavam em cadeiras de roda
que não enxergavam com os olhos
que liam em braille
que não escutavam com os ouvidos e precisavam do meu toque no corpo.
Pessoas que faziam o percurso falando, outras que queriam escutar o silêncio.

Pessoas que tocavam velozmente cada obra, outras que deixaram o tempo correr e deslizaram lentamente seus dedos nas esculturas…
Moradores de Campinas, Hortolândia, Sumaré, São Paulo, Rio de Janeiro, Bauru, Brasília, Fortaleza, Havaí … Moradores do mundo. De casas grandes e quentes, de casas frias e pequenas, próximas ou distantes. Gente do mesmo mundo. Do único mundo que temos. Do mundo que somos nós.
Algumas choraram, outras gritaram quando se assustaram, algumas riram muito…
Pessoas que antes temiam o escuro descobriram que ele pode ser mágico.
Pessoas que aprenderam a se ver com as mãos.
Pessoas que voltaram na exposição para guiar outras, conhecidas ou desconhecidas.
Pessoas que se surpreendiam, surpreendiam-me e aos monitores.
Pessoas que se propuseram a ver como todos os sentidos.
730 pessoas que agora também estão De olhos no mundo.
Pessoas que agradeço imensamente pela confiança e por aceitarem o convite para aprender a se ver, a ver o outro e o mundo com todos os sentidos.
Aguardem a seleção de fotos e os depoimentos!
Com enorme carinho,
Tatiana Passos Zylberberg

Comentários