Cabe a cada uma de nós aprender a ver o outro e o mundo com todos os sentidos! Leia o texto que Tatiana escreveu sobre a tolerância.
O equívoco da tolerância*
Tatiana Passos Zylberberg (2005)
Temos uma cultura que segrega, hierarquiza, diferencia e, que no discurso, tolera a diferença. Criamos locais em que nem todos entram, seja pelo valor do ingresso que cobramos, pela largura da porta que escolhemos ou porque construímos escadas ao invés de rampas. Utilizamos termos como retardado, medíocre, vegetal, coitado e, aprendemos, que a pena ou a estranheza são as duas únicas alternativas de relação.
Às vezes me pergunto o que aconteceria, se nós soubéssemos falar com os olhos ou com as mãos, com aqueles que não escutam as palavras? Haveria comunicação sem fronteiras? E se fossemos educados a acreditar que há mobilidade, mesmo quando os movimentos de braços e pernas não são visíveis? Quem sabe não ficaríamos tão surpresos ao perceber, que todas as pessoas andam, correm, enxergam, dançam…
Uma vez eu fui entregar uma pequena caixa com as compras de uma amiga no apartamento dela. Por três vezes o porteiro insistiu que eu deveria ir pelo elevador de serviço e não me deixou subir pelo social. Que sociedade é essa em que as diferenças são criadas pelos olhos de quem olha? Ou melhor, pela lente daqueles que “ensinam’ a ver?
As pessoas nos impedem de aprender ou fazer algo tendo como critérios a nossa idade, título, cor da pele ou a forma que nos vestirmos. E nós continuamos afirmando que os escravos foram libertados e que somos um povo miscigenado “por natureza”. Construímos um mundo que limita. Alimentamos as diferenças com nossa própria insignificância, e ainda assim, nos julgamos sapiens.
Da mesma forma que nos alertam sobre ler nas entrelinhas, os professores podem nos ajudar a ver além do visível. Somos humanos e o mistério da diferença há de ser encarado como uma benção e, não, uma maldição.
Expressões marginalizam e discriminam. Leis contradizem suas implementações. O que será necessário?
Inicialmente, temos que rever nossas crenças sobre o que os outros são e ainda sobre o que somos. Já conheci pessoas inteligentíssimas que não sabiam manipular as letras para escrever palavras simples. Já conheci pessoas que escrevem de forma complexa e são incoerentes diante do outro que se põe a sua frente. Talvez não dimensionem o efeito profundo da crueldade dos insultos que deixam marcas e alteram percursos de vida.
Em 2001, quando ministrei um curso para alunos de Engenharia Civil em Itajubá empenhava-me em mostrar-lhes que, antes do que as regras e cálculos de construção, precisavam aprender a ver os “humanos”. Saber que há os que enxergam com os olhos e outros o contato, que alguns podem andar sobre os pés, alguns precisam de rodas. Além disso, temos que respirar o ar puro e usufruir da luz natural. Diante da compreensão das diferenças, quem construiria edifícios em que o acesso para todos não existe em nenhuma das entradas? Quem pensaria em prédios trancados na própria escuridão enquanto o sol oferece a luz? Quem faria portas tão estreitas para que não passasse uma mãe com seu filho nos braços?
Não adianta mais pedirmos desculpas. Quem não tolera esta lentidão sou eu!
Fechamos os vidros de nossos carros nos iludindo sobre a responsabilidade em relação à miséria e a fome alheia? Alheia ao que? A nossa própria história? Estamos cercados pela corrupção política e deixamos de votar. Temos que continuar acreditando que existe outra forma de conviver. Eu acredito na vida e acredito nas pessoas. Por isso, faço um convite. Abandonem o equívoco da tolerância. Amem incondicionalmente aqueles que estão a sua volta. Acreditem: aquilo que pedimos a Deus cabe a nós.
*Esta crônica autobiográfica foi publicada no livro “30 Momentos” em julho de 2005. A renda deste livro foi revertida para as ações do “Letras de Esperança”, projeto que patrocina a exposição “De olhos no mundo”.